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Alta da Selic: Brasil fica na contramão da tendência de juros negativos no mundo

Enquanto os países desenvolvidos seguem na defesa da manutenção das taxas de juros em patamares baixos em meio a preocupações sobre a crise causada pela pandemia, no Brasil o Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu ao elevar a Selic a 2,75% ao ano, indicando ainda que mais altas estão por vir.

O movimento colocou a taxa básica da economia do Brasil entre as maiores em uma lista com 40 países. O país passou a ter a 6ª maior taxa de juros, considerando a previsão para 12 meses e descontada a inflação. É o que aponta levantamento feito pela gestora Infinity Asset, em parceria com a Money You.

A taxa de juros real do Brasil passou a 0,76% – ou seja, ficou no campo positivo, ao contrário da média global de juros, negativa em 1,17% (isto é, com inflação maior que a taxa de juros, o que resulta em taxa real negativa). O Brasil ficou ainda na lista de apenas 7 países com juros reais positivos, contra 33 negativos.

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A elevação dos juros no Brasil acontece em um momento em que a tendência é de manutenção das taxas em patamares considerados baixos em economias mais desenvolvidas. Embora preocupações com a inflação não sejam exclusividade brasileira no momento, os economistas explicam que, entre as justificativas para essa diferença, está a maior incerteza.

“A ideia do Banco Central de segurar a meta da inflação se mostra bem sólida. Mas acho que fica um pouco o alerta para a questão fiscal”, comenta Thiago Lobato, head de Capital Solutions do Ártica. Fernando Scofano, consultor de valores mobiliários da K1 Capital Humano, também cita “dúvidas sobre a política fiscal”, e acrescenta que há ainda “a questão de risco político e o impacto que deve acontecer na atividade econômica com a aceleração dos casos de covid”.

Em um cenário em que a tendência dos juros para o Brasil é oposta à de países desenvolvidos, a avaliação dos especialistas é de que, no curto prazo, o mercado brasileiro pode se beneficiar do aumento do chamado diferencial de juros (carry trade). Isso acontece porque as taxas brasileiras sobem enquanto a de outros países caem, fazendo com que o Brasil se torne mais atraente a investidores estrangeiros em busca de rentabilidade.

Nesse sentido, Lobato afirma que, embora um aumento dos juros signifique, geralmente, uma tendência de queda na bolsa de valores por causa da migração de investimentos para a renda fixa, o comparativo entre o Brasil e outros países faz com que o momento atual seja diferente. “Neste caso, deve ter valorização da bolsa pela entrada de capital estrangeiro”, afirma.

Comparação entre os países

Segundo o levantamento da Infinity Asset, o país com a maior taxa de juros real é a Turquia, com 8,26%. “A Turquia é um país que está passando por um momento de inflação alta. Acabou de sair a decisão da taxa por lá. Também surpreendendo o mercado, subiu em 2 pontos percentuais. E a justificativa é semelhante à nossa: a preocupação com o impacto na inflação da questão das commodities e da volatilidade cambial. Afinal, a lira turca é também uma moeda que sofreu bastante com a volatilidade”, comenta Scofano.

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Já o país com a menor taxa real é a Argentina, com juros negativos em mais de 12%. O número representa a situação peculiar do país: apesar de manterem a taxa juros nominal elevada (caiu de 40% e está atualmente em 38% ao ano) para tentar atrair investidores, os argentinos convivem com uma situação de forte descontrole de preços, traduzido em uma inflação anual de quase 40%.

Já entre os países desenvolvidos, a situação é diferente. Os Estados Unidos anunciaram nesta semana a manutenção dos juros no intervalo entre 0 e 0,25% ao ano – mesmo com preocupações sobre a inflação também afetando as estimativas no país.

“O Fed nesse ponto acabou sendo mais rigoroso: está bastante preocupado com a recuperação da economia. Tem pressão inflacionária, mas o Fed entende que vale a pena manter os juros estáveis pelos próximos anos tentando garantir a retomada da economia”, comenta Lobato.

Na Europa, a tendência também é de estímulo monetário, e não aperto. Na quinta-feira (18), a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, disse que o órgão não irá responder a episódios temporários na inflação. “O Banco Central Europeu, por meio do programa de compra de títulos, indica que deve manter a taxa e vai agir mais ativamente para que ela fique no patamar em que está”, comenta Scofano.

Ele cita ainda outros casos entre os países desenvolvidos que vão na contramão da tendência de alta dos juros vista no Brasil. “A gente já teve decisão do banco da Inglaterra, que optou por manter a taxa. O banco da Noruega tomou a mesma decisão, mas disse que está avaliando o cenário.”

“Nos países desenvolvidos, espera-se uma manutenção da postura de continuar com os estímulos monetários. Nos países emergentes, existe uma preocupação adicional sobre o impacto que (a alta dos preços das) commodities e o câmbio têm na sua inflação e capacidade de recuperação econômica”, compara Scofano.