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Economia pode sofrer efeitos da pausa escolar na pandemia por até 2 décadas

O fechamento das escolas durante a pandemia terá impacto direto sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do país por décadas. É o que aponta um estudo da Secretaria de Política Econômica (SPE), do Ministério da Economia, que publicou recentemente uma versão do Boletim MacroFiscal sobre os custos socioeconômicos das restrições sociais na educação básica. O levantamento tem como base o nível de aprendizado e produtividade no mercado de trabalho das pessoas que participação da atividade econômica no futuro. 

O documento supõe que a crise chegue até o final de 2022, causando um hiato de três anos na educação, o que poderá surtir efeito na economia por até duas décadas. A análise aponta duas formas de lidar com o problema. A primeira seria deixar a interrupção escolar cobrar seu preço no estoque de capital humano, o que, segundo a pesquisa, seria uma catástrofe. Já a segunda seria cobrir a lacuna educacional com anos adicionais de estudo, o que diminuiria o número de pessoas geradoras de riqueza em idade laboral, efeito também considerado dramático para o mercado de trabalho. 

Na segunda opção, as consequências devem durar aproximadamente 15 anos após o término da pandemia – supondo que a idade escolar comece aos 5 anos e siga até os 20 anos –, dado que esse seria o período para que toda a faixa da população que está sofrendo hoje com a paralisação das aulas entre no mercado de trabalho. 

Por outro lado, o economista Marcos Antonio de Andrade, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), tem uma visão mais otimista quanto à recuperação do hiato escolar. Para ele, se houver plano econômico que direcione boa parte dos investimentos públicos para a educação, especialmente do ensino médio e superior, o período de recuperação será mais curto, não superior a 5 anos. 

Para Andrade, uma das alternativas para diminuir os efeitos da privação do aprendizado durante a pandemia sobre a economia é dobrar o investimento na educação. Ele também lembra que parte do orçamento da pasta do ano passado não foi utilizada e, por isso, sugere que os recursos deveriam retornar para a área como tática para recuperar o nível de instrução escolar dos alunos e retomada econômica. 

Matheus Albergaria, professor de economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), acrescenta sobre a importância da criação de um programa de gastos em outras áreas para reduzir as implicações da pandemia como um todo. “Precisamos de políticas econômicas mais focadas em ajudar os necessitados, o trabalhador com baixa qualificação e as pessoas que não têm renda para subsistir no dia a dia”, especifica o Albergaria. 

O que esperar no longo prazo do déficit de educação?

Para o professor da UPM, as consequências da interrupção escolar têm muito a ver com o aprendizado e a produtividade, sobretudo, com a diminuição das expectativas de crescimento econômico de qualidade no mercado de trabalho. “A economia vai retomar, mas vamos sentir falta de mão-de-obra com o mínimo de especialização. Vamos ter obstáculos quanto a isso”, explica o Andrade. 

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Sob outra perspectiva, Albergaria ressalta que os impactos vão além do capital humano. “Haverá um efeito negativo permanente sobre as habilidades cognitivas dos jovens que estão sendo privados de uma educação plena no momento, pois as atividades em sala de aula os ajudam a desenvolver a coordenação motora, o raciocínio mais rápido e as habilidades sociais de interação”, esclarece o economista. 

Dessa forma, as implicações devem ser tanto na vida profissional, no sentido do nível de competência para realização de trabalhos, quanto na vida pessoal, relativo à conduta dos indivíduos

O professor da FECAP também pontua que, de acordo com estudos do economista James Hackman, é possível esperar maiores taxas de desemprego e aumento da criminalidade que poderão ocasionar prejuízos para a economia. “Teremos consequências a longo prazo no mercado de trabalho e na vida desses jovens”, menciona Albergaria. 

A dificuldade de continuar os estudos

Por ora, os problemas dos alunos estão indo muito além de não ir até a escola e ter um aproveitamento pleno, eles se dividem entre as suspenções de aulas remotas que vêm ocorrendo e a falta de acesso à internet para sua realização 

De acordo com a nota técnica apresentada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), sobre o acesso domiciliar à internet e ensino remoto durante a pandemia, cerca de 6 milhões de estudantes da pré-escola a pós-graduação, sendo a maioria de instituições públicas de ensino, não têm acesso à internet em banda larga ou 3G/4G em seu domicílio.