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Ibovespa: o que aconteceu em 2021 e o que esperar em 2022

Apesar das expectativas otimistas do mercado no começo de 2021, o ano foi negativo para a bolsa de valores. O Ibovespa, principal índice da B3, amargou a sua primeira queda anual desde 2015, quando a baixa foi de 13%. Em 2021, o índice fechou aos 104.822 pontos, recuando 11,93%.

Segundo levantamento feito por Matheus Spiess, analista da Empiricus, até o dia 28 de dezembro o setor financeiro e o de consumo discricionário (mais sensível aos ciclos econômicos) respondiam por 79% da queda do índice, enquanto as 10 ações que mais caíram no Ibovespa em 2021 eram responsáveis por 65% do tombo.

Em 2022, a renda variável continuará sendo marcada pela forte volatilidade, dada a proximidade das eleições presidenciais no Brasil, projeta Ricardo Peretti, estrategista de ações da Santander Corretora.

Segundo Peretti, indicadores econômicos, o comportamento da curva de juros e pautas no Congresso vão guiar o humor dos mercados nos próximos meses. “Isso não significa, porém, que o cenário desafiador não proporcione oportunidades para os investidores”, destaca.

Veja abaixo os momentos que mais impactaram o principal índice da B3 e as projeções do que esperar para o próximo ano nos mercados financeiros.

Ibovespa em 2021

Após ter fechado 2020 nos 119.017,24 pontos, o Ibovespa iniciou uma trajetória de forte volatilidade. No seu primeiro pregão do ano, no dia 4 de janeiro de 2021, o índice da B3 fechou aos 118.854,71 pontos.

Segundo levantamento feito por Bruno Komura, analista da Ouro Preto Investimentos, foram 8 acontecimentos que pressionaram o índice. Veja abaixo:

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Ainda em janeiro, os mercados foram impactados pelo medo de uma possível segunda onda da covid-19. Komura explica que o Ibovespa devolveu boa parte da boa performance do final de 2020.

Países mais desenvolvidos já sinalizavam o que poderia acontecer no Brasil. No mundo, a variante delta, mais transmissível que a original, já causava estragos. Enquanto no Brasil, segundo Komura, a variante gama chegou a afetar severamente o Amazonas, provocando falta de oxigênio no estado.

Enquanto os países desenvolvidos decretavam lockdown, a economia global e a cadeia de suprimentos era prejudicada. A vacinação no Brasil era um problema, bastante incipiente e com o seu avanço dependendo de impasses políticos.

Em fevereiro, o Ibovespa foi penalizado pelas ameaças do governo federal de intervir em companhias estatais.

Com a alta dos combustíveis, Bolsonaro fez declarações de que mudanças seriam necessárias na Petrobras. Houve a troca de comando da empresa. Roberto Castelo Branco deixou a presidência e quem assumiu foi Joaquim Silva e Luna, indicado por Bolsonaro. No entanto, “não houve mudanças significativas na política de preços e nem nos planos de desinvestimento”, avalia Komura.

Mesmo assim, a preocupação do mercado era a de que essa intervenção se estendesse para outras companhias estatais, como Banco do Brasil e Eletrobras. “Intervenções geralmente não têm bons resultados, não são pensadas em maximizar lucros”, afirma o analista.

O índice chegou a cair até os 120.355,79 pontos no dia 17 de fevereiro.

Em março, a perspectiva em relação ao Orçamento começou a animar os mercados. No final de março, o Ibovespa estava no patamar de 116.633,72 pontos e iniciou uma trajetória de alta que chegaria ao seu ápice no mês de junho.

Komura relembra que, na época, a demora para aprovar o Orçamento de 2021 e a falta de visibilidade para os gastos do governo incomodavam o mercado.

Mas após a definição, o otimismo ganhou força, embora a agenda defendida pelo Ministério da Economia – que incluía privatizações e as reformas tributária e administrativa – não tenha andado.

Em junho, o Ibovespa atingiu seu auge e conquistou o patamar dos 130 mil pontos. O mercado estava animado com perspectivas sobre a reabertura da economia após as restrições da pandemia, diante de avaliações de que o pior momento da segunda onda da covid-19 tinha ficado no passado.

No entanto, esse otimismo não foi o prevaleceu nos meses seguintes. O Ibovespa iniciou um ciclo de queda voltando novamente ao patamar dos 120 mil pontos em agosto, novamente com temores sobre o risco fiscal.

“Com a queda da popularidade do governo e a lentidão na economia, o auxílio voltou”, aponta Komura, em referência às discussões sobre aumentar o valor do Bolsa Família e substituí-lo por um novo programa, o Auxílio Brasil.

A preocupação do mercado era como os novos gastos seriam acomodados no orçamento, considerando que o Brasil já estava entre os maiores endividamentos frente aos pares emergentes.

Em setembro, turbulências externas se somaram às preocupações locais. A incorporadora chinesa Evergrande apresentou sinais de colapso.

Komura explica que o problema com a companhia chinesa acabou contaminando mercados emergentes porque, no olhar do investidor estrangeiro, todos os países emergentes são enxergados como “um bloco”.

“O Brasil foi afetado por ter a China como principal consumidora das suas commodities”, afirma. O problema penalizou também no preço do minério de ferro e em consequência nas ações da Vale e siderúrgicas.

Ainda em setembro, o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) começou a mudar o seu discurso, adotando um tom mais duro com a inflação e indicando que elevaria os juros americanos antes do esperado.

A perspectiva de alta dos juros americanos fazia outros mercados perderem atratividade. Investidores começam a procurar ativos mais seguros, o que impacta a renda variável dos países emergentes.

No dia 18 de outubro, o Ibovespa recuou até o patamar de 114.428,18 pontos. A queda foi puxada pela impopularidade do governo federal, que começou a dar sinais mais claros em direção ao populismo, destaca Komura. “Houve mudanças no teto de gastos”, lembra Komura.

No dia 1 de dezembro, o índice caiu até os 100.774,57 pontos, puxado pelas preocupações com a nova variante da covid-19, a ômicron, que impactou também os mercados globais.

Os primeiros estudos indicavam que, embora menos letal, a variante era mais transmissível, levantando receios sobre a necessidade de mais medidas de isolamento, prejudicando a retomada da economia. Segundo Komura as preocupações com essa variante devem se manter ainda no começo de 2022.

Ibovespa em 2022

Embora o ano de 2022 deva ser marcado pela volatilidade, as incertezas não significam que a bolsa deixou de ter oportunidades. É o que diz Ricardo Peretti, estrategista de ações da Santander Corretora, acrescentando que a expectativa é que o Ibovespa chegue ao fim de 2022 nos 125.000 pontos – o que significaria uma elevação de 19% em relação ao patamar atual do indicador.

Contudo, de acordo com Peretti existem algumas heranças de 2021 que ainda devem preocu´par os investidores no novo ano. São elas:

  • Juros: A Selic fechou 2021 em 9,25% e o ciclo de alta de juros deve continuar em 2022, se arrefecendo apenas em 2023. O estrategista da Santander Corretora aponta que uma Selic em 2 dígitos impacta alguns setores da economia.
  • Inflação e descompasso entre IPCA e IGP-M: com o IGP-M acumulando alta de 17,78% até dezembro e o IPCA no patamar de 10,74% nos últimos 12 meses até novembro, os índices inflacionários permanecem distantes. Isso sinaliza que o IPCA, que mede a inflação para os consumidores, deve continuar acima da meta do Banco Central por mais tempo do que esperado pelo mercado.
  • Ruídos políticos: Peretti explica que a dissonância entre os três poderes deve continuar em 2022. Além disso, ruídos políticos são comuns em ano eleitoral, o que provoca mais volatilidade na bolsa de valores. Empresas estatais sofrem mais neste cenário.
  •  Inflação nos EUA: Jerome Powell, presidente do Fed, terá a missão de controlar a inflação nos Estados Unidos, que atingiu em 2021 seu maior patamar desde 1982.
  •  Câmbio: Peretti também cita o câmbio, que após subir mais de 7% em 2021, deve continuar pressionado pelo risco fiscal e ruídos políticos.

Bom para alguns, amargo para outros

O estrategista de ações da Santander Corretora aponta que, em 2022, acredita que os setores financeiro, commodities e proteínas devem ser destaques positivos na bolsa de valores.

O segmento financeiro, com ações de bancos e seguradoras, deve se beneficiar com a alta dos juros.  Já o setor de commodities, principalmente empresas de papel e celulose (muito expostas ao dólar), devem se beneficiar com a alta do câmbio e se tornar uma alternativa de proteção de carteira para os investidores que buscam fugir da volatilidade. Então, papéis como Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11) se destacam.

O segmento de proteínas, com destaque para os frigoríficos JBS (JBSS3) e Minerva (BEEF3), também se beneficia dessa dinâmica.

Na outra ponta, com os juros em alta, Peretti recomenda que investidores fiquem longe do setor de varejo, empresas de transporte com receita atrelada ao e-commerce e companhias com forte alavancagem atrelada ao CDI.