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Orizon e o setor de lixo: vale a pena para diversificar a carteira?

Se a economia e o consumo de um país avançam, o lixo evolui junto. Em 2020, o segmento, que até pouco tempo atrás era ignorado por muitos investidores, chegou à bolsa de valores e vem despertando interesse: afinal, no lixo também há lucro?

Na B3, apenas duas companhias fazem parte deste segmento. A primeira é a Ambipar (AMBP3), que além da gestão de resíduos, atua em outras vertentes ambientais. A segunda é a Orizon Valorização de Resíduos (ORVR3), focada 100% no tratamento e destinação correta do lixo, que estreou na bolsa em fevereiro de 2021.

Segundo Raphaela Olis, especialista da Flip Investimentos, o setor de lixo é um dos mais promissores no horizonte de longo prazo (de 5 a 10 anos). Isso porque o consumo das pessoas só tende a aumentar e, em consequência, mais lixo é gerado, e este precisa de companhias que cuidem do tratamento e destinação.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe), a geração de resíduos sólidos urbanos cresceu com força nos últimos anos. Até 2019, foram registradas 79 milhões de toneladas de lixo por ano. Destas, 41% são destinadas de forma inadequada. Sem destinação correta, o lixo fica largado a céu aberto ou contamina os reservatórios de água (lençóis freáticos).

Danielle Lopes, analista da Nord Research, explica que frente a esta necessidade de tratar e destinar corretamente os resíduos, companhias como a Orizon encontraram uma oportunidade de mercado. Atualmente, a empresa é responsável por 10% do volume de resíduos tratados adequadamente no Brasil.

A expectativa é que o setor de lixo se fortaleça ainda mais com o Novo Marco Legal de Saneamento Básico, que estabelece o fechamento de 3 mil lixões até 2024. Isso, segundo a Abrelpe se traduz em pelo menos 13 milhões de toneladas de lixo que vão precisar ser destinadas da forma correta.

Para a Orizon, que atualmente trata 4,5 milhões de toneladas de lixo, somar mais 13 milhões facilmente lhe ajudaria a dobrar de valor de mercado. Contudo, no setor atualmente existem cinco companhias que concentram 28% do marketshare (participação de mercado)

Vale a pena investir na Orizon?

Danielle comenta que a Orizon (ORVR3) existe desde 1999, mas foi apenas em 2013 que a companhia concentrou suas atividades no tratamento de resíduos sólidos.

Conhecida no passado como Haztec, a empresa fez inúmeras aquisições para trabalhar em áreas diversas, de aterros sanitários até tratamento de água. A falta de sinergia das operações lhe deixou como herança um endividamento da ordem de 12 vezes dívida líquida/ebitda.

A partir de 2013, a companhia passou por um processo de reestruturação, ressurgindo em 2018 como a Orizon, uma empresa focada 100% em gestão de resíduos sólidos.

Atualmente, a Orizon tem 5 aterros sanitários e três plantas para tratar resíduos perigosos. A companhia está presente em seis estados brasileiros e pretende expandir para Rio de Janeiro, Paraíba e Pernambuco.

Cerca de 45% da sua receita vem de contratações públicas para aterros sanitários ou incineração de resíduos. O restante está dividido em uma carteira corporativa de mais de 500 clientes do setor privado, entre estes Braskem, Cyrela e Michelin.

Segundo Danielle, as receitas da Orizon estão concentradas da seguinte forma:

  • 65% tratamento e destinação de resíduos perigosos e não perigosos
  • 16% exploração de biogás, energia e créditos de carbono
  • 13% beneficiamento de resíduos
  • 6% engenharia ambiental

Ela destaca que as receitas da Orizon estão diretamente ligadas ao volume de lixo. Desta forma quanto maior é o PIB, mais lixo e em consequência mais receita e lucro para a companhia.

Desvantagens

No entanto, embora o setor seja promissor pelo nível de atividade econômica e pela onda ESG (Environmental, Social and Governance) dos investimentos, Danielle aponta alguns empecilhos que estão travando o potencial da Orizon e são sinais de alerta na hora de investir na companhia.

Entre as desvantagens, a analista da Nord Research destaca:

  • Forte dependência do setor público: 45% das contratações da Orizon vem do governo, principalmente prefeituras, que são conhecidas por ser péssimos pagadores. A companhia está exposta a lentidão dos pagamentos e risco de inadimplência. Isso sem contar uma possível interrupção dos contratos no futuro.
  • Barreiras de entrada e mercado concentrado: O setor de lixo tem apenas 5 players que concentram 28% do mercado. Existem também muitas barreiras locais, desenvolver novos ecoparques ou aterros pode levar até 10 anos e precisa de investimentos milionários, fazendo com que o endividamento dessas companhias seja elevado.
  • Endividamento elevado e sazonal: antes do IPO, a Orizon tinha dívidas de cuidado, como um CCB do Credit Suisse com juros de 21% ao ano. A dívida foi amortizada com o IPO da companhia, restando R$ 245 milhões no seu endividamento, o que representa 1,8 vezes dívida líquida/ebitda. No entanto, embora menor, a alavancagem ainda é elevada para permitir aquisições futuras.

Somada a essas desvantagens, as especialistas consultadas pela reportagem destacam a falta de proximidade do investidor com a companhia, em parte pela dificuldade de encontrar e interpretar informações do setor ou da própria Orizon.

Com o lixo considerado um setor “pouco sexy”, o investidor ainda mantém o foco em companhias de tecnologia, por exemplo. E, com menos compradores, a ação tem pouca chance de se valorizar. “É uma barreira de entrada do investidor que não enxerga o potencial do setor de lixo”, aponta Raphaela Olis.

Vantagens

Embora com três pontos de alerta que impedem a evolução da empresa, existem também algumas oportunidades no radar da Orizon a médio prazo, entre estas o Novo Marco Legal de Saneamento Básico, que estabelece o fechamento de 3 mil lixões até 2024.

Raphaela, da Flip Investimentos, destaca entre as principais vantagens:

  • Receita atrelada ao PIB: quanto maior o Produto Interno Bruto (PIB), maior o consumo e, em consequência, a geração de lixo. Segundo a especialista, apesar da crise que vivemos atualmente, o consumo só tende a aumentar nos próximos anos, gerando mais retornos para a Orizon
  • Natureza ESG: Tanto Orizon como Ambipar são investimentos que nasceram com foco ambiental. Segundo Raphaela, o ESG deve se fortalecer na bolsa nos próximos 3 anos, fazendo destas empresas pioneiras.
  • Diversificação: Mesmo no setor de lixo, a Orizon trabalha com aterro sanitário, tratamento de resíduos e exploração de biogás, diversificação que ajuda no crescimento da companhia.
  • Marco de Saneamento: Com 3 mil lixões fechados até 2024 e 13 milhões de toneladas de lixo que precisarão de destinação correta, a companhia tem oportunidades de crescimento.

Ainda entre as vantagens, Danielle destaca as futuras aquisições da Orizon. A companhia pretende implementar novos aterros, plantas de beneficiamento e mecanizadas. “Com mais aquisições e uma boa gestão da empresa, a Orizon pode reduzir suas dívidas. Novas unidades de tratamento de materiais podem ser uma fonte de receita para provar que a companhia consegue cuidar do lixo de uma forma diferente”, avalia a analista da Nord.

Investimento para qual estratégia?

Apesar de ser um setor promissor com algumas oportunidades como o Marco de Saneamento ou o aumento do consumo brasileiro, as especialistas consultadas pela reportagem ressalvam que é preciso ter cautela com a companhia.

Raphaela aconselha aos investidores acompanhar os desdobramentos da Orizon e suas estratégias durante, pelo menos, 1 ano antes de ter uma posição na companhia. “É bom aguardar os próximos balanços, avaliar se a empresa tem um boa gestão e a mudança de olhar dos investidores”, aponta.

Para aqueles investidores que já possuem uma boa carteira e querem aproveitar uma oportunidade barata no mercado, ela recomenda não investir mais de 5% dos recursos em Orizon (ORVR3).

Já para Danielle, ainda é muito cedo para se expor à companhia, e é preciso aguardar melhorias no ebitda e receitas da empresa, além de avaliar se ela entregou resultados saudáveis e condizentes com os planos da atual gestão “Aguardaria o resultado de pelo menos 2 trimestres”, afirma.

No entanto, defende que o melhor caminho para este tipo de companhias é uma dependência menor do setor público e ampliar o leque de negócios com o setor privado.