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‘País está longe de estar quebrado, mas tem crise de gestão’, diz economista

O presidente voltou a dizer nesta quinta-feira (7) que o Brasil está “quebrado”. Em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro disse que o Brasil “está quebrado, na questão pública, está”.

A frase foi dita dois dias depois de Bolsonaro afirmar que o Brasil está quebrado e, por isso, ele não pode “fazer nada”. “Chefe, o Brasil está quebrado, chefe. Eu não consigo fazer nada. Eu queria mexer na tabela do Imposto de Renda, teve esse vírus potencializado pela mídia que nós temos aí, essa mídia sem caráter”, afirmou também em conversa com os apoiadores na segunda-feira (5).

A fala repercutiu mal entre políticos e economistas. Na quinta, ao retomar o assunto, o presidente comentou a repercussão. “Falei que o Brasil estava quebrado, e está quebrado, na questão pública, está. Vê se os prefeitos não estão quebrados, estão no limite, pagando suas despesas obrigatórias. Tá no limite”, disse.

Para o economista Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM SP, o presidente parece estar “desinformado”. Ele comenta que dados macroeconômicos como o nível de reservas cambiais e o comércio exterior do Brasil deixam o país distante de uma situação de “quebradeira” – apesar da questão fiscal seguir preocupando e do desemprego elevado continuar prejudicando o quadro social.

“O país está longe de estar quebrado, e tem, sim, uma crise de gestão”, afirmou Trevisan ao InvestNews. Veja abaixo os principais pontos da entrevista:

IN$ – O Brasil está mesmo “quebrado”?

Leonardo Trevisan – “Eu tomo bastante cuidado com as palavras, e a minha primeira palavra é que o presidente está desinformado. O Brasil não está quebrado. Se ele chamar o ministro da Economia, o presidente do Banco Central e o diretor da Cacex (Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil), que cuida de exportação, ele vai ter notícias um pouco diferentes daquelas que ele já viu. Eu acho que isso revela um quadro bastante complicado, para não usar a palavra “perigoso”, que é o presidente estar desinformado da real situação do país. Qualquer empresa em que o presidente está desinformado sobre como vai o seu fluxo de caixa, como vai a sua produção, a empresa está emitindo sinais ruins. O que nós temos de fato é que, se você olhar vários dados macroeconômicos, o Brasil não está numa situação difícil, muito pelo contrário.

IN$ – Quais são esses dados que levam à conclusão de que a situação não pode ser apontada como “difícil”?

Leonardo Trevisan – “Eu vou dar alguns números e acho que a gente precisa se basear por eles. O ex-ministro Mário Henrique Simonsen tinha uma frase muito interessante que eu acho que o presidente deveria ser apresentado a ela. Ele dizia que “crise comercial aleija, e crise cambial mata”. O Brasil não vive nem uma e nem outra.

Hoje, nós não temos déficit comercial. Nós vamos fechar o ano com superávit comercial de US$ 51 bilhões. Praticamente 18% acima de todas as projeções do mercado. E com uma expansão mais de mais de 25% em relação ao nosso principal mercado que é a China. Do que nós vendemos, um terço vai é para a China. Isso é um sinal saudável do nosso comércio exterior. Porque é indiscutível que a China será o único país do mundo que vai crescer em 2020. A China vai crescer 1,8%, e tem uma previsão de crescer mais de 10% no ano que vem. Nós vendemos para um mercado que vai crescer. Portanto, nós não temos apenas um superávit em 2020, nós temos uma expectativa de superávit ainda maior em 2021. O presidente precisa ser informado disso. 

Se o presidente não sabe, os dois principais produtos da nossa pauta de exportações, minério de ferro e soja, têm preços ascendentes. Há uma expectativa de crescimento dos preços que está registrada. O mercado futuro já registra o crescimento desses dos produtos. Então, portanto, o que nós vendemos, nosso superávit comercial, anula qualquer possibilidade de déficit comercial. Portanto, aquilo que era o alerta de crise de comércio, que é o que aleija, nós não temos. 

Quanto à crise cambial, me desculpe, o presidente precisa tomar um cafezinho com o presidente do Banco Central. Em dezembro de 2019, o Brasil tinha uma reserva cambial de US$ 356,8 bilhões. Em dezembro de 2020, nós temos uma reserva cambial de US$ 356,9. Nós crescemos nas reservas cambiais. O motivo disso é que praticamente nós temos 80% das nossas reservas em títulos do governo americano, que se valorizaram porque o mundo inteiro em 2020 quis comprar. É como se eu tivesse um carro que valorizou o preço.

Portanto, estamos absolutamente bem. Nós somos credores em dólar. Nós temos uma dívida externa em dólar que é menor que a nossa reserva. Nós estamos bem longe de ser aquele país quebrado dos anos 80 e 90. 

IN$ – O mercado externo sabe disso? A frase do presidente gerou receio entre alguns economistas sobre a possível repercussão entre os investidores estrangeiro.

Leonardo Trevisan – “Exatamente porque os números são esses que, nos últimos 3 meses de 2020, no último trimestre de 2020, a bolsa brasileira recebeu um ingresso de R$ 56 bilhões. Nós recuperamos boa parte do que perdemos no começo da crise da pandemia, dos dólares que saíram. É este o motivo pelo qual o dólar despencou. Porque está entrando dólar. Então, de alguma forma, o cenário externo em absoluto não concorda com o presidente. O Brasil não está quebrado.

Se você fosse a gestora de um fundo de investimentos externo, você colocaria dinheiro num país quebrado? Nós temos US$ 56 bilhões de entrada de dólares para investimentos de risco, em bolsa, que evidentemente é um sinal de que o país tem um grau de investimento que interessa a esse investidor.

Se nós olhamos para esse quadro, temos que olhar também por que o investidor fez isso. Porque a nossa relação entre dívida e PIB (exatamente pelo comércio externo, exatamente pela questão da reserva) baixou, e não aumentou. Em outubro, nós tínhamos 92%. Em novembro, de 89%. Porque a atividade econômica no país se recuperou. 

IN$ – Por outro lado, em quais aspectos podemos dizer que estamos “quebrados”?

Leonadro Trevisan – É como eu disse no início. Os dados macroeconômicos, que é o que diz se o país está quebrado ou não, em absoluto não concordam com essa análise do presidente. Uma coisa sim que está “quebrada” são as atitudes e as ações do governo. Desculpe. O governo, sim, está sem saber muito o que fazer. Esses números que eu dei são produto não de Brasília, mas do Brasil. São os dados de um país que está funcionando. E que não têm nada a ver com a nossa dívida social, com nossos dados microeconômicos, que são bastante ruins. 

O crescimento do desemprego, e todos os males que isso traz, é bastante preocupante. Esses 14,6% significam 14 milhões de pessoas sem trabalho. E isso são aqueles que procuraram emprego nos últimos meses. Porque, quando você soma os desalentados, que são aqueles que pararam de procurar emprego há bastante tempo e estão só esperando oportunidade pra voltar ao mercado de trabalho, você soma mais 5 milhões de pessoas.

E as pessoas no subemprego também. Entenda bem o que é subemprego: aquele sujeito que só trabalha no dia que tem feira. Ele não trabalha a quantidade de vezes que ele gostaria, o número de horas que ele gostaria. Nós temos 11 milhões de brasileiros nessa situação. Some para você ver. Dá mais de 30 milhões de pessoas. Agora, curiosamente, não é sobre esse “Brasil real” que o presidente revela preocupação.

IN$ – Por quê?

Leonardo Trevisan – Ele disse que onde ele vê um Brasil “quebrado” é porque ele queria corrigir a tabela do Imposto de Renda. Uma espécie de agrado à classe média. Ora, o motivo pelo qual ele não conseguiu corrigir a tabela é que ele não fez qualquer esforço na direção de uma reforma tributária. A reforma tributária foi sucessivamente adiada. O governo não se posiciona. Não cuida nem mesmo da questão orçamentária. A PEC Emergencial ele não moderou para que acontecesse. Então, a situação do Estado brasileiro é grave. E, me desculpe, a situação do Estado brasileiro é grave e não é por causa da pandemia. Ela só agravou a situação em que o Estado Brasileiro fez de alguma forma erros bastante graves. 

O jornal “O Estado de S.Paulo” publicou um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) dizendo que as despesas do setor público, que é de direta direção do senhor presidente, passaram do equivalente a 38,4% do Produto Interno Bruto em 2010 para 42,7% em 2019. Entre 2018 e 2019, os gastos do setor público no Brasil cresceram 3,6%. E não era pandemia. Então, se há um desequilíbrio… De alguma forma, o setor público brasileiro ficou um pouco aquém dos problemas que tem. O país está longe de estar quebrado, e tem, sim, uma crise de gestão. Tanto isso é fato que não conseguimos fazer nenhuma das reformas que nós tínhamos programado. A reforma administrativa não andou, a tributária não andou.

IN$ – O problema das contas públicas vem sendo apontado com frequência como o principal entrave do crescimento. No mercado, existe a preocupação sobre a capacidade do governo de conseguir honrar seus compromissos, ou seja, com a solvência. Como você vê essa questão?

Leonardo Trevisan – Quando a gente olha para a despesa fiscal, o quadro fiscal, basta esse número que o economista Marcos Mendes tem repetido. Ele é o principal articulador do teto de gastos, sabe exatamente do que está falando. O déficit público brasileiro se constrói porque ano após ano, nos últimos 10 anos, as despesas do governo crescem de 6 a 7% acima da inflação. Nenhuma empresa resiste a isso.

(…) O déficit fiscal continua crescendo. Então, de alguma forma, nós vamos caminhar para um desequilíbrio muito grande. E, nos dois primeiros anos de governo Bolsonaro, não se enfrentou esse problema. 

IN$ – Temos então um risco de solvência?

Leonardo Trevisan – Ah, sim. Não há dúvida nenhuma. 

IN$ – E, se chegarmos a essa situação, aí sim estaremos “quebrados”?

Leonardo Trevisan – Não há dúvida alguma. Porque, a longo prazo, quando você olha para frente, daqui a 4, 5 anos, vai ter o déficit crescendo. É evidente que precisa de uma reforma administrativa no Brasil. Isso não quer dizer que os funcionários públicos são os responsáveis pelo mal. Não é nenhuma caça às bruxas. É gerência de recursos.

Isso tudo me leva a pensar que está mais quebrada a questão da gestão pública do que o país em si. Foi um erro grave, expressão mal utilizada. E isso precisa ser deixado bem claro. 

E essa situação vai ficar bastante mais grave porque, no ano que vem, nós não teremos, para usar a expressão que os economistas gostam, esse anabolizante mágico que é o auxílio emergencial. Não há recursos para isso. E, como os fatos parecem estar sinalizando, as vacinas não serão instantâneas e nada parece ter sido combinado com o vírus. Ele segue fazendo o que bem quer. Eu temo que nós podemos ter um problemão do ponto de vista da crise social do país. 

IN$ – Pensando em países que estão de fato “quebrados”, que comparação podemos fazer com o Brasil? É o caso da Venezuela, por exemplo?

Leonardo Trevisan – A Venezuela está quebrada não é apenas por uma questão política. O lado político ficou pior. A Venezuela está quebrada porque o barril de petróleo, que custava US$ 130, caiu para US$ 40. A situação ficou muito dramática na Venezuela porque ela é dependente exclusiva desse trabalho, tem um PIB extremamente concentrado em exploração de petróleo. É um caso muito específico e muito isolado, é melhor a gente não comparar. 

O que podemos comparar são os nossos irmãos argentinos. Um país quebrado que este ano está comemorando que vai ficar com 45% de inflação. É um caso quase único no mundo. A Turquia, por exemplo, que agora está tendo uma série de problemas, está desesperada porque a inflação chegou a 12%.

O quadro na Argentina é o de um país sem reservas cambiais, enquanto a nossa cresceu, e não caiu. É um quadro de um país que tem déficits fiscais brutais e acumulou uma dívida externa, principalmente no final do governo Macri, com US$ 51 bilhões para a Argentina do FMI. Isso é um país quebrado. Que não tem recurso sequer para gerenciar o valor do dólar, um déficit fiscal brutal de 106%.

A Argentina, mesmo sendo uma grande produtora de produtos primários, não teve o superávit que nós tivemos em relação ao PIB deles. Esse é um caso de país quebrado. E tem a questão social também. O desemprego argentino é de algo perto de 18% – e tem muita gente que acredita que não seja só isso, porque os dados não são confiáveis. De qualquer forma, esses são dados de um país economicamente quebrado. Macroeconomicamente e microeconomicamente. Não é caso do Brasil.