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Republicanos culpam Biden pela inflação, mas eles estão certos?

Enquanto democratas lutam para aprovar a agenda social e de mudança climática do presidente Joe Biden, republicanos os acusam de alimentar a inflação e tornar a vida dos norte-americanos mais custosa com suas iniciativas políticas.

O índice de preços ao consumidor dos EUA acumulou alta na comparação anual de mais de 5% por quatro meses consecutivos, enquanto a economia sofre com escassez de mão de obra e oferta causada pela pandemia de covid-19. A secretária do Tesouro, Janet Yellen, previu no fim do mês passado que a inflação permaneceria elevada no próximo ano.

“Não há alívio à vista. É o resultado direto de inundar o país com dinheiro”, disse o líder da minoria no Senado, Mitch McConnell, o principal republicano da Câmara, a repórteres na semana passada. “A última coisa que precisamos fazer é acumular outro imposto maciço e imprudente e uma onda de gastos.”

McConnell falou durante coletiva de imprensa de 13 minutos, durante a qual ele e sua equipe de liderança fizeram pelo menos duas dezenas de referências à inflação e ao aumento dos custos ou preços.

Mas os republicanos estão certos em culpar Biden e os democratas pelos preços mais altos? Não inteiramente.

O que está acontecendo no mundo?

Os Estados Unidos não estão sozinhos no enfrentamento de um surto de forte inflação. Uma medida importante acompanhada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que a inflação nos 38 países-membros está no nível mais alto desde 2008, elevada em grande parte pelo aumento global dos preços de energia.

Os preços do petróleo, por si só, quadruplicaram nos últimos 18 meses, conforme a demanda por energia se recuperou com a reabertura das economias após as paralisações relacionadas à covid-19.

E sobre os gastos com estímulo?

O principal argumento republicano contra Biden é que sua agenda legislativa de vários trilhões de dólares piora a inflação ao inundar a economia com gastos do governo e prometer muito mais.

Sua agenda inclui um plano de resgate de US$ 1,9 trilhão — a única proposta promulgada até agora — e uma conta de infraestrutura de US$ 1 trilhão ainda a obter aval. Depois disso, virá seu pacote de gastos sociais e climáticos “Construir Melhor”, que deve custar cerca de US$ 1,75 trilhão.

Mas as taxas de inflação anuais para dezenas e dezenas de bens comprados rotineiramente pelas famílias norte-americanas — incluindo alimentos — já estavam em seus níveis mais altos em uma década antes de Biden entrar na Casa Branca no início deste ano.

Isso se deve em grande medida aos gastos com alívio aos efeitos da covid-19 aprovados sob o governo de Donald Trump com apoio republicano esmagador no Senado. Os valores superam o que os democratas alocaram até agora em cerca de US$ 1 trilhão.

Esse dinheiro manteve os orçamentos das famílias intactos durante a crise e permitiu que consumidores continuassem a gastar, apesar do desemprego de dois dígitos. Além disso, a poupança das famílias disparou para níveis sem precedentes, fornecendo um combustível para mais despesas com atividades como jantar fora e viagens quando estes se tornaram amplamente disponíveis novamente.

Os republicanos apontam preocupações levantadas pelo ex-secretário do Tesouro Larry Summers, democrata que alertou em fevereiro no Washington Post Op-Ed que o plano de resgate de Biden poderia alimentar a inflação. Mas outros economistas, incluindo Mark Zandi, da Moody’s Analytics, disseram desde então que a agenda de Biden tem mais probabilidade de elevar as perspectivas de crescimento de longo prazo da economia e aliviar a inflação.

Obrigatoriedade da vacina está puxando a inflação?

Os republicanos afirmam que a determinação para que funcionários federais e colaboradores de empresas privadas com mais de cem funcionários estejam vacinados estão exacerbando a escassez de mão de obra nacional em um momento em que as pressões inflacionárias estão afetando salários e preços.

É verdade que o crescimento do emprego e da força de trabalho desacelerou nos últimos meses e que os empregadores estão lutando para encontrar trabalhadores –havia 10,4 milhões de vagas ociosas em agosto, número próximo de um recorde.

Mas o prazo para cumprir a obrigação da vacina ainda se estende por mais de um mês, e não existem dados firmes para validar esta afirmação, embora várias grandes empresas tenham começado a expressar preocupações sobre sua capacidade de reter e contratar trabalhadores por causa disso. Outras, como a United Airlines (U1AL34), disseram ter visto aumento nas aplicações para vagas após a adoção de vacinas.

As regras de vacinação visam proteger os norte-americanos da covid-19, em um momento em que apenas 67% da população dos EUA recebeu pelo menos uma dose de um imunizante, de acordo com o Reuters covid-19 Vaccine Tracker.

Os republicanos alegam que os mandatos estão forçando trabalhadores que se recusam a ser vacinados a sair da força de trabalho.

Enquanto milhares de trabalhadores nos Estados Unidos enfrentam potenciais perdas de emprego, a resistência à vacina é mais forte nos Estados liderados pelos republicanos, onde tem sido amplamente reforçada por autoridades republicanas.

Qual o impacto dos benefícios de desemprego melhorados?

Os republicanos argumentam que “auxílios exorbitantes” do governo federal, incluindo um seguro-desemprego federal de US$ 300 por semana na pandemia, também contribuíram para a escassez de mão de obra e o aumento da inflação.

Mas esses benefícios, que terminaram no país em setembro, parecem ter tido impacto limitado na participação no mercado de trabalho. Os Estados liderados principalmente pelos republicanos que bloquearam os pagamentos criaram empregos em agosto a um ritmo de menos da metade em comparação aos de Estados que permitiram que os pagamentos fluíssem.

Que efeito estão tendo os problemas na cadeia de fornecimento?

Os republicanos também querem culpar Biden pela escassez gerada por problemas na cadeia de suprimentos, que contribuiu para a inflação.

Mas especialistas dizem que a covid-19 perturbou todos os aspectos da cadeia de abastecimento global, desde a fabricação e transporte até logística, e não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, em um momento em que a pandemia também gerou onda de compras. O problema se deve em parte a uma estratégia de negócios de décadas que visa manter os estoques reduzidos.

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